27.5.05

Memórias de Rapina

Que é a sombra que ali se aproxima, do canto escuro da Terra dos Mortos?
Boca suja, murmura o espanto e no terror noturno se refugia
Quando na noite, sorrateira, vigia
Sente o pavor dos dentes rangendo, até o nascer do dia
Arrasta seu corpo débil, balbuciando calúnias cinzas
Rasgando o concreto podre dos muros altos com unhas
Aparição horrenda, visão necrófaga e pusilânime

Vagando pelo solo amargurado da Morte, fitei uma alma
Perdida em pensamentos, tardia no pensar de repente
Indagava mesmo a estátua impiedosa do Anjo
Que nada dizia, por só poder calar
Meu coração em tristeza, batia
Quando a voz cansada e abatida daquele Maldito
Contou ao Silêncio como ali viera a estar

Funesta foi-lhe a Sorte, ao seu Amor lhe arrancar
Sem tempo de despedida, somente o pavor no olhar
A noite, berço sublime dos amantes
Escondia em sua trilha um terror antigo
E antes do beijo que selaria um Destino
A Fera Negra da Escuridão pôs violento fim a seu Caminho
Extirpando-lhe não só o Sangue quente e a carne alva de vida Jovem
Como toda e qualquer esperança de querer continuar existindo
Num golpe rápido de sua cruel vontade
Deu fim à própria vida, entregando-se à Besta
Pois ainda que na imensidão do Desespero
Encontrá-la ia se fosse preciso

Sombrio foi-lhe o acaso, ao lhe revelar
Que nem sempre o Fim é igual para todos
E infindas são as jornadas
Que um ou outro pode engendrar
Vazia e em prantos, aquela alma então procurou
Pelos Vales do Escuro, pelos Bosques do Choro
Sua essência-gêma, sua fragrante Vida par
Mas nem mesmo em veiosos rios de ouro
Pôde o infeliz sua Luz encontrar

Não dou sequer mais um passo que me aproxime desse Abismo
Pois que o frio que o envolve torna o ar amargo
E, ainda que me chamem de Senhor do Egoísmo
Não me ofereci para um sorriso largo
E pûs-me sorrateiro para fora dali
Em um vôo leve, na madrugada gelada
Levando comigo o que ouvira aqui
Como segredo precioso, uma aliança velada