18.8.05

Noite de Chuva

Chuva elétrica cobre a madrugada
Cadência violeta sobre telhado que escorre
Lágrima que verte riscando, céu ao chão
Melancolia azul impressa numa paisagem

Asfalto onírico até o caminho do Sonho
Onde nada é o que salta aos olhos
E tudo não passa de um espaço curto
Entre um momento e outro

Nácreas vozes ecoam sem timbre ou tom
Rasgando o vento como flecha sem destino
Cantam insanidades e delícias nuas
Tragados pela correnteza de um beco sem saída

No borrão do vidro, rostos corados
Elevam as falas ao pudor do vinho
Delírios medidos de pureza inculta
Derramando-se pelo recinto como calor

Clarões de raios arrancando a escuridão
Ocultam deuses que se beijam e dançam
Rodopios estrondosos adornados por trovões
Tempestade de dádivas sublimes no negror da noite

Nas plácidas poças da calçada uma esperança
De um dia de Sol, que ainda não foi

2.7.05

Funeral


Caminho estreito na passagem lúgubre
Procissão noturna de lágrimas e vento
Lua, suave, observa a escuridão.
Atenta, sussurra lábias em triste tom
Passos pesados pela madrugada
Ecoam profunda dor, gritando alto
Sangram frias o passado tão cruel

Como as rosas vermelho-quentes
Escarlate se fez a vastidão
Quando o visitante de mil rostos
Desceu do seu trono abissal
A colheita então teve início
E tudo foram gritos por horas

Tornada vazia, a névoa desfez-se
Com ela, a esperança deixava o antro
De paredes úmidas, gotejando ódio
Não mais o dia acordaria, calor e luz
Nenhum sol outra vez brilharia
Somente a gaiola, concreto e pó
A fumaça na janela, denso clarão
Toma destino quieta e perpetra
A rua, o céu, a lua

Silhuetas escuras agouram alma perdida
Que, só e aflita, acorda termos póstumos
Prepara-se o novo círculo de senhores negros
Governantes taciturnos e frios da imensidão
O fogo eterno e interior
Bebe-os inteiros e em goles rápidos

Mórbida, prossegue a procissão
Um coro intenso leva as vozes em prantos nós
Desatando em desespero sublime
Doce alimento, predatória refeição
Dos pássaros carniçeiros, mergulhando
À própria sorte, à certa morte

27.6.05

Avesso

Um objeto descansa sobre a mesa
Seus cantos são afiados, lâmina virgem
Repousa plácido em tristeza vagarosa
Sentindo cegar-se como noite densa

Quebra-se o silêncio como um vaso azul
Mesa abaixo, ruído súbito
No chão, de pé, o punhal reflete o corpo
De uma vida violeta, fragrante feminescência

Sentindo-se acorrentada pela ilusão da dor
Tomou-lhe a mente os elos quebrar
Desesperada, ainda experimentava a culpa
Ao abandonar a dádiva de viver

Descia a cena um semblante mudo
Que apreciava a tudo, em quieto auspício
Seus olhos enuvesceram em melancolia
Tornando noite o coração outrora dia

Lágrimas deslizando em rios veiosos
No rosto necro-belo, de juventude macia
Manchas de lápis e maquiagem a tudo inundam
No alvorecer sem face, daquela Luz menina

A mão fria da Visitante Negra
Toca-lhe os lábios com um segredo cruel
“Não se pode fugir das correntes de uns,
sem nas de outros enfim descansar”.

27.5.05

Memórias de Rapina

Que é a sombra que ali se aproxima, do canto escuro da Terra dos Mortos?
Boca suja, murmura o espanto e no terror noturno se refugia
Quando na noite, sorrateira, vigia
Sente o pavor dos dentes rangendo, até o nascer do dia
Arrasta seu corpo débil, balbuciando calúnias cinzas
Rasgando o concreto podre dos muros altos com unhas
Aparição horrenda, visão necrófaga e pusilânime

Vagando pelo solo amargurado da Morte, fitei uma alma
Perdida em pensamentos, tardia no pensar de repente
Indagava mesmo a estátua impiedosa do Anjo
Que nada dizia, por só poder calar
Meu coração em tristeza, batia
Quando a voz cansada e abatida daquele Maldito
Contou ao Silêncio como ali viera a estar

Funesta foi-lhe a Sorte, ao seu Amor lhe arrancar
Sem tempo de despedida, somente o pavor no olhar
A noite, berço sublime dos amantes
Escondia em sua trilha um terror antigo
E antes do beijo que selaria um Destino
A Fera Negra da Escuridão pôs violento fim a seu Caminho
Extirpando-lhe não só o Sangue quente e a carne alva de vida Jovem
Como toda e qualquer esperança de querer continuar existindo
Num golpe rápido de sua cruel vontade
Deu fim à própria vida, entregando-se à Besta
Pois ainda que na imensidão do Desespero
Encontrá-la ia se fosse preciso

Sombrio foi-lhe o acaso, ao lhe revelar
Que nem sempre o Fim é igual para todos
E infindas são as jornadas
Que um ou outro pode engendrar
Vazia e em prantos, aquela alma então procurou
Pelos Vales do Escuro, pelos Bosques do Choro
Sua essência-gêma, sua fragrante Vida par
Mas nem mesmo em veiosos rios de ouro
Pôde o infeliz sua Luz encontrar

Não dou sequer mais um passo que me aproxime desse Abismo
Pois que o frio que o envolve torna o ar amargo
E, ainda que me chamem de Senhor do Egoísmo
Não me ofereci para um sorriso largo
E pûs-me sorrateiro para fora dali
Em um vôo leve, na madrugada gelada
Levando comigo o que ouvira aqui
Como segredo precioso, uma aliança velada

12.5.05

A Orgia Sepulcral

O corvo salta a árvore abaixo, sedento
Contempla ávido os restos de Prazer no chão
Sua amiga que vidas alheias finda por ofício
Trouxe-lhe um presente pútrido e repulsivo
Como recompensa por seus olhos leais
E sua fidelidade carniçeira

O lobo negro com fogo no olhar
Sente o cheiro familiar da Morte
E se aproxima calmo, como bom servo
Aguardando que a companheira gélida
Pague-lhe seu rasteiro soldo
Ainda que a voracidade cavalgue seu âmago

A áspide rastejante do Ódio
Seduz-se com a beleza do espetáculo torpe
Deslizando pelo corpo visceralmente exânime
Sentindo conforto e calor, inconsciente
No berço imundo da miserável Mãe
Que a todos afaga no Fim

A viúva-negra, em arrogante ensejo
Experimenta o asco ao dar por conta o Desejo
E nos ossos moribundos, desfila sombria
Sua alma, já tão vazia, percebeu o silêncio
Regozijando-se na morbidez pálida do mármore branco
Uma cova aberta, como ventre vazado

Nas lápides não se via lembrança
Das noites de devassidão herética
Frente ao cemitério calado e escuro
Cujos fantasmas pactuavam em ritos
Com toda a sorte de dor
Num reino esquecido de névoas e sombras
Em algum lugar do Coração

5.5.05

Cães da Rua

Os cães, ladrando rua afora
Se debatem e devoram transeuntes
Que, possuídos por pura Ira
Entregam-se diretamente a ele
Que vaga com a noite, com cheiro de luxúria
Como flores noctívagas em inverno claro

Os cães, ladrando rua afora
São sombras de exorcismos órfãos
Que correm cegas e abandonadas
Pelo Destino
Devorando, possuindo
Derramando sangue escarlate
Sobre Rosas primaveris
Que banham-se na debandada
Da matilha senil, infernal em si mesma

Os cães, ladrando rua afora
São arautos de legiões selvagens
Implorando por suas almas num inferno de lágrimas
Seu estandarte é a violenta morte
Que toma pelo braço uma Besta andarilha
Triste consorte na intrépida passagem
Cujo barco silencioso esgueira-se
Sob as mãos de Caronte

Os cães, ladrando rua afora
Não temem a Cruz ou a Fé
Seguem sob o signo das silhuetas nuas
Rastejando pelas paredes
Como raça impura, suja e cuspida
Da boca de um Demônio Vermelho

Os cães, ladrando rua afora
Ornam seus corpos com a Lua
E uivam para a madrugada
Cantando angústias em tom de choro
Ao Sacerdote Último, que ao partir
Lamentou por seu negro trono

4.5.05

Daquilo Que Se Esconde Nas Sombras

Sou a cria de tempos outros
Visceral, presa ao mundo por piedade
Rastejarei em meus restos nefastos
Nefandamente
Perfurando o crânio incógnito da escura cova
Escarrando com ódio por minha sina ardil
Num covil insólito onde busco a chuva
Por sua melancolia, sua sutileza fria
Que, nua, escancara à morte seus dentes afiados
Sem nunca reter no sangue o desejo de ver o dia
Outra vez
Em minhas veias um fervente escárnio
Pronto a descer por gargantas ávidas e quentes

Sou aquilo cujo corpo se acalenta na escuridão
De um coração negro, uma alma gritante
Aprisionado em meu corpo que morre, a cada segundo
No véu negro e translúcido da noite
Encontro caminhando minhas respostas
Que sempre agonizam em chamas inquisitórias
Por mais, sempre mais...

Sou a serpente que no deserto se esgueira
Afundando-se na areia cálida do próprio desespero
E implorando pela Luz que lhe fora negada,
Fez pactos com deuses corníferos
Em uma constante tempestade de iniqüidade
Contra os inimigos de sua divindade
Que no longínquo alvorecer de sua insanidade
Estão permeados pelo ódio incandescente
Bradando aos quatro ventos sua vingança póstuma
Para com as gerações vindouras da sedenta serpente

Sou a brisa gélida que espreita catacumbas
Vagando certeira, buscando moribundos
Que antes mesmo de se retirarem para as tumbas
Sentirão arder na carne a perdição de mil mundos!
E quando, tolos, acordarem para a verdade crua
Terão se perdido em minhas revoltas
Amargurando sua profunda solidão, pela rua
Rasgando seu Eu em pedaços, em torturas penosas

E quando, em tua hora última sentires a dor
Estarei lá, esperando por tua voz
Que sem esperança clamará ao ardor
Por piedade nas garras desse algoz!